PODCAST BUG DO MILÊNIO

Metaverso

Viver dentro da internet: essa é a grande promessa do metaverso, que vem atraindo bilhões de dólares dos mais diferentes figurões. De Mark Zuckerberg a Snoop Dogg, da Microsoft à Epic Games. Estamos falando da realidade virtual e da realidade aumentada? Sim, só que o metaverso é maior do que isso. Ele representa um choque ainda mais radical entre o mundo físico e o mundo digital. O que é real e artificial nesse universo? O que é presença? No novo episódio do podcast Bug do Milênio, Caio Machado e Letícia Duarte vão mergulhar no mundo das telas e contar para nós o que eles encontraram.

Transcrição

Se você não estava incomunicável em uma ilha deserta nas últimas semanas, você certamente já está sabendo que o Facebook mudou de nome e agora se chama Meta - numa referência ao tão badalado metaverso.

Esse conceito vem bombando há alguns anos no circuito tecnológico - e vai muito além do Facebook. Mas, afinal, você sabe o que metaverso realmente significa?

Seria a internet 3D? Ou a internet das coisas? A era da realidade aumentada, dominada pela inteligência artificial? Ou a Matrix? Quem sabe todas as alternativas anteriores!

Bem-vindos ao Bug do Milênio, o podcast do Instituto Vero. Esse é um manual alternativo da internet. Aqui, vamos entender como a tecnologia está mudando a sociedade… e como impedir a revolução das máquinas!

No episódio de hoje, a gente vai destrinchar o metaverso, essa nova tecnologia que está em expansão acelerada e que promete revolucionar a forma como nós todos usamos a internet, com uma navegação mais imersiva. Vários jogos já estão se adaptando. E a aposta é que todos nós, em poucos anos, estaremos usando vários gadgets de realidade virtual que nos permitem estar no mundo físico e digital ao mesmo tempo.

E aí, o que acontece quando o virtual vira o novo real? Prepare-se para desafiar os seus sentidos e ressignificar aquele velho ditado do “ver para crer”.

O nome “metaverso” surgiu em 1992, numa ficção científica de Neal Stephenson chamada Snow Crash. O termo era usado para descrever um ambiente virtual 3D onde os usuários poderiam fazer qualquer coisa, em qualquer lugar do mundo. Na ficção, todas as interações humanas eram direcionadas a esse mundo virtual, o que provocava uma mudança na própria cultura das pessoas no mundo físico. Apesar de o conceito ainda estar longe da realidade, ele despertou a imaginação de muitas pessoas em prol de criar esse tipo de tecnologia.

Atualmente, o metaverso seria a convergência da realidade física e do espaço virtual. Ou seja, a criação de um mundo virtual em que as pessoas podem interagir a partir de realidade aumentada, realidade virtual e outras tecnologias. Como explicou o Adam Mosseri, que comanda o Instagram, a ideia é basicamente uma internet que você não só acesse, mas possa entrar nela. A palavra de ordem é imersão. Em vez de conversar por vídeo, olhando para um retângulo iluminado, por exemplo, nós poderíamos entrar numa sala virtual, quem sabe sentados num sofá virtual um de frente para outro, e isso daria a sensação de maior intimidade, de maior conexão.

Seria uma imersão no chamado Mundo Digital Virtual em 3D. Esse mundo pode ser o nosso do dia a dia que já conhecemos, mas também pode ser um mundo completamente diferente, criado do zero, que desafia nossa própria imaginação.

Toda essa ideia de metaverso ainda está em construção - então ninguém sabe direito ainda onde isso vai chegar. Mas o princípio é que a gente não precisa se limitar às regras do mundo físico.

Eu sei que tudo isso pode parecer meio louco, mas isso já é realidade no mundo dos jogos. Esse ramo vem crescendo tanto que a Microsoft já até anunciou planos para levar os jogos do Xbox ao metaverso. Já imaginou jogar um Minecraft em um metaverso? Ou para quem é mais das antigas, um Flight Simulator, aquele jogo em que você aprende a pilotar aviões?  Esses jogos tecnicamente já são um metaverso. Mas é uma espécie de metaverso 2D. Imagina isso em 3D, onde a gente use equipamentos para ficarmos sensorialmente imersos num espaço virtual. Pensem como isso pode evoluir.

Eu confesso que não sei nada de videogame, então pra mim tudo isso é grego! Ainda bem que o metaverso não vale só pra games! As empresas de tecnologia vêm investido para usar toda essa expertise de games para tornar a nossa comunicação do dia a dia mais real - e algumas projeções sugerem que ao longo da próxima década a gente comece a migrar toda a nossa interação pra esses espaços virtuais imersivos. A Microsoft já anunciou inclusive o Mesh for Teams, que permitirá aos usuários interagirem em um espaço virtual por meio de uma webcam ou avatar 3D personalizado.

Ou seja, metaverso também é pro trampo, chamada de vídeo, e pros home officers! E um outro objeto que promete se popularizar pra isso tudo virar realidade são os óculos de realidade virtual. Aliás, convido os ouvintes a assistirem no YouTube vídeos de pessoas caindo ou quebrando objetos em casa jogando algum jogo com óculos VR. Só os óculos já fazem a gente esquecer do universo físico, imagina se a gente começar a ligar outros sentidos, como o toque e o paladar.

Já imaginou, sentir aromas e perfumes pela internet? Espero que todo mundo chegue na reunião de banho tomado e com o desodorante em dia! É, o metaverso vai denunciar quem enforcar o banho. Viu, menino do áudio? haha

Assim como tem aquele botão para mutar o áudio da pessoa, acho que precisam criar um botão para bloquear os cheiros, em caso de emergência! haha. Mas nesses tempos em que todo mundo está trabalhando em casa, ter uma experiência imersiva mais real parece bastante tentadora.

E, óbvio, muita gente quer lucrar com esse mercado. O Tim Sweeney, fundador da Epic Games, empresa dona da febre mundial Fortnite, já anunciou que vai investir 1 bilhões de dólares para financiar “sua visão de longo prazo para o metaverso”. Ou seja, a corrida pela conquista do metaverso já começou. Até o rapper americano Snoop Dogg tá dentro disso, você sabia?

Pois é, ele fez uma parceria com o metaverso The Sandbox para recriar sua mansão em Los Angeles para que os fãs possam entrar virtualmente e apreciar suas coleções de NFT - que é uma espécie de certificado digital para garantir a originalidade e exclusividade a bens digitais. ALIÁS, a gente ainda tem que fazer um episódio pra falar mais sobre NFT!

Pois é, em breve vamos fazer! Mas por enquanto, basta saber que o Snoop Dogg é viciadíssimo em toda essa onda. E ele vem inventando várias coisas, inclusive uns passes exclusivos para que quem compra possa acompanhar a vida do artista. E ele também planeja fazer um show exclusivo em suas terras virtuais.

Esses shows virtuais interativos são uma super tendência, né. No The TikTok Experience, já houve show do The Weeknd, onde havia uma versão animada do artista e os comentários dos fãs apareciam em tempo real.

No Fortnite também teve! Teve show da Ariana Grande e do Trevis Scott no Fortnite’s Rift Tour, que era basicamente um show virtual de alguns dias de duração que contou com mais de 78 milhões de jogadores.

E vale explicar que não é como se o artista fizesse uma live no computador. É outra coisa. Nesses shows, por exemplo, os artistas tinham avatares do tamanho de um arranha-céu e podiam voar ou ir para debaixo d’água, e os fãs - ou no caso os jogadores - podiam segui-lo.

Se a moda pega, daqui a pouco podem inventar shows de artistas ou bandas que nem existem mais. As possibilidades são ilimitadas! Vai que já já fazem um show do Michael Jackson, ou dos Beatles?

Hoje já é possível ter um gostinho do metaverso, mas a maioria dos serviços disponíveis hoje em dia ainda oferece experiências imersivas por meio de computadores convencionais. Imagina como seria caso estivéssemos realmente dentro daquela realidade, com nossos gadgets. É uma outra experiência.

Talvez a comparação mais tangível seja aquele jogo Second Life, lembra? Ele basicamente estava muito à frente do seu tempo porque ele é justamente a ideia do metaverso. No Second Life a jogadora Ailin Graef, que jogava com o pseudônimo Anshe Chung, virou a primeira milionária virtual: a propriedade que ela tinha no jogo já somava mais de 1 milhão de dólares em 2006.

Pois é, lá você podia criar um avatar virtual, construir toda uma vida digital, podendo socializar, construir uma casa, vender, trabalhar, entre outros. Atualmente, também temos o GTA V que também segue essa mesma ideia de realidade paralela.

Para além da própria criação do metaverso, também tem que haver um melhoramento na própria estrutura da internet. Imagina, com essa nossa conectividade que fica caindo o dia todinho se é sequer possível se conectar num mundo tão ultra conectado!

Eu que o diga. Acho que a infraestrutura nesse caso vai precisar avançar muito para conseguir ficar satisfatória para um metaverso. Aqui entra também outro debate importante que a gente já abordou no Bug: a questão do 5G, que tá sendo implantado no Brasil agora.

E saindo um pouco desse universo dos jogos, também temos outras big techs olhando bastante para esse futuro. Tanto que o Facebook, anunciou a sua repaginada de marca com o novo nome meta. Oficialmente, o Mark Zuckerberg disse que a ideia era adaptar a empresa para o futuro, mas essa repaginada aconteceu justamente em um momento em que a empresa tenta recuperar a sua imagem, após as denúncias da ex-funcionária Francis Haugen, que a gente abordou no episódio 09.

Para muita gente, esse anúncio seria uma estratégia para varrer as acusações para debaixo do tapete. Será que vai dar certo? Só o tempo vai dizer se troca de nome vai realmente significar uma guinada. Por enquanto, há muito ceticismo.

O Zuckerberg ainda não apresentou soluções para os problemas do presente. Mas, se vocês tiveram a oportunidade de assistir ao vídeo, devem ter percebido o tanto de coisa diferente que eles planejam para o futuro.

Delírio ou não, o fato é que Zuckerberg já está investindo 50 milhões de dólares para financiar grupos sem fins lucrativos a construir o metaverso. Ele acredita que em 10 ou 15 anos, a ideia comece a se concretizar e tomar forma. Ainda temos um longo caminho pela frente.

Sim, segundo eles, o metaverso é a nova fronteira, assim como as redes sociais eram quando a empresa começou. Eles pretendem, inclusive, abrir lojas físicas para pessoas experimentarem o metaverso. Então você poderia ir lá para experimentar aqueles óculos da Ray-ban com câmera embutida, ou o Oculus, para imergir de vez no metaverso.

É uma forma de despertar ainda mais a curiosidade das pessoas nesse novo mundo. Ainda há muitas pessoas que não experimentaram, seja por motivos pessoas, seja por motivos econômicos, já que os dispositivos são caríssimos e pouco acessíveis. Principalmente no Brasil, com a moeda extremamente desvalorizada!

Como o futuro está sendo criado agora, temos que pensar sobre como queremos viver a nossa vida no metaverso. Será que queremos replicar as regras do mundo real? Criar um novo? Além disso, é importante que ele não seja dominado apenas pelas big techs, já que deveria ser um espaço colaborativo.

O problema é que quem tem a grana para investir nessa tecnologia são os gigantes tecnológicos. E nada sugere que o modelo vá mudar. Pelo contrário, tudo indica que as novas possibilidades do mundo virtual vão manter o poder na mão de quem já comanda hoje - e a gente tem visto, como no caso do Facebook, ops, META, como o interesse pelo lucro quase sempre acaba acima do interesse coletivo.

Eu diria que o principal problema dessa lógica de metaverso é que ele não é um universo, mas sim um espaço privado. Então, diferente do mundo físico, que é igual pra todo mundo, o metaverso é criado por alguém, geralmente tendo em vista interesses particulares.

Em outras palavras, no metaverso, os deuses são as empresas que criam o ambiente, que desenham os serviços, arquitetam o espaço e criam "leis" com base nos interesses deles mesmos. Para dar um exemplo: o design do Instagram, é feito para a gente ficar mais tempo na plataforma. As notificações ficam em lugar bem visível, vermelho para chamar atenção, o feed de conteúdo é feito para a gente ficar rolando infinitamente - enfim, é feito para a gente ficar lá consumindo o serviço, dando likes e gerando receita para eles.

O metaverso está para as redes sociais como o smartphone está para o Nokia da cobrinha. A gente já fica viciado quando é um aplicativo no celular. Imagina o que vai acontecer quando a gente estiver mergulhado nesse universo. Imagina, por exemplo, ver pop-up de propaganda enquanto você está no bar (virtual) com os seus amigos, ou algumas atividades do mundo físico fossem restritas a usuários "premium".

Tem até um vídeo do Porta dos Fundos que chegou a brincar com essa ideia. É exatamente isso, as leis do mundo passam a ser leis privadas.

Não podemos pensar com ingenuidade dessa corrida pelo metaverso. Não é para criar esse mundo para nós, as bigtechs estão pensando no mercado do futuro e quem vai dominar primeiro. Por exemplo, no caso do Meta, eles estão pensando na venda do seu Oculus e dos novos gadgets que estão surgindo aí para o metaverso.

E tem ainda a questão da privacidade. Imagina quando toda a sua forma de perceber e interagir com o metaverso seja feita por meio de dispositivos privados: óculos de realidade virtual, fone de ouvido, microfone, dispositivos sensoriais, etc. Tudo o que você faz, sente e ouve, controlado por dispositivos diretamente conectados a esses gigantes da tecnologia. De um lado, eles controlam o que você vê, ouve e se você pode falar. Além disso, eles vão ter mais canais para  monitorar a gente em um nível biológico mesmo: onde estamos olhando, o timbre da nossa voz, nossos movimentos.

Parece até série de sci-fi, mas é algo que realmente pode acontecer. Tudo isso já é coletado massivamente por essas empresas via os celulares. Então, ao invés deles coletarem quando estamos no aplicativo,  vai ser toda a nossa experiência online no  metaverso, que pretende ser social, profissional - enfim, a nossa segunda vida.

HASHTAG TENSO!

Sem falar que essa internet 3D vai ser um espaço ainda mais atraente pra quem tá pro golpe, né? Há o risco de crimes Hackers, roubos de identidade, fraudes, além abuso, o cyberbullying, stalking.

Olhando por esse lado, o metaverso nem parece tão diferente do mundo real assim. Moral da história: a tecnologia não vai nos salvar. Parece que ainda vamos precisar dos humanos para alguma coisa.