PODCAST BUG DO MILÊNIO

Em busca da Tinderella

Preparem seus corações apaixonados, serenos ou aflitos, porque o tema deste episódio é relacionamento virtual. Em plena pandemia global, os aplicativos de relacionamento estão batendo recordes. É uma indústria que movimenta mais de US$ 2 bilhões e tem mais de 15 milhões de usuários só nos Estados Unidos. A balada virtual está quente, mas será que no fim do dia acabamos mais conectados ou mais solitários? E quais as novas ciladas no meio do caminho? Vale a pena pagar uma inscrição top para achar a “pessoa perfeita”? E quais os efeitos dessa tinderização do mundo? Estamos encurtando a distância entre os mundos real e virtual ou aumentando a distância entre quem gostaríamos de ser e quem realmente somos? Caio Machado e Letícia Duarte não são cupidos, mas vão mergulhar no mundo dos relacionamentos e da tecnologia. Vem com a gente.

Transcrição

Na pré-história da internet, a paquera virtual podia começarnuma sala de bate-papo com aquela clássica mensagem: "oi! vc quer tc?"Hoje a coisa evoluiu tanto que tem uma infinidade de aplicativos para todos osgostos. 

Se os aplicativos não garantem amor eterno, no mínimo podemfacilitar a busca por potenciais parceiros, mesmo que o " parasempre" dure apenas uma noite, ou algumas horas: é só distribuir um montede cliques e esperar pelo match. 

E se antes da pandemia o uso de aplicativos era uma opçãopara quem estava com preguiça de ir numa balada, em tempos de pandemia osencontros virtuais viraram o novo normal.

Mas, bem, que novo normal é esse?

Hoje, preparem os seus corações apaixonados, serenos ouaflitos, porque a gente vai falar de relacionamento virtual. E em plenapandemia global, os aplicativos de relacionamento estão batendo recordes. É umaindústria que movimenta mais de US$ 2 bilhões e tem mais de 15 milhões deusuários só nos Estados Unidos.

A balada virtual está quente, mas será que no fim do diaacabamos mais conectados ou mais solitários? E quais as novas ciladas no meiodo caminho? Vale a pena pagar uma inscrição top para achar a “pessoaperfeita”? 

E quais os efeitos dessa tinderização do mundo? Estamosencurtando a distância entre os mundos real e virtual ou aumentando a distânciaentre quem gostaríamos de ser e quem realmente somos?

Não somos cupidos e nem sei se a gente tem resposta paratodas as perguntas, mas vem com a gente que o papo é quente!

CAIO: E aí, Letícia, você já usou aplicativo derelacionamentos?

LETICIA: Acho que a pergunta nem é mais se já usei, masquais! haha. Aqui nos Estados Unidos os aplicativos são hoje em dia a formamais comum de conhecer pessoas, e praticamente todo mundo usa. O interessante éque existe uma infinidade de aplicativos, vai muito além do Tinder. Em alguns,como o Bumble, por exemplo, é a mulher quem tem que tomar a iniciativa de puxara conversa. Outros, como o Hinge, exigem que você crie uma conta e responda apelo menos cinco perguntas antes de publicar o seu perfil - e isso é umestímulo para que as pessoas tenham mais elementos para poder iniciar umaconversa, além das fotos. E o Happn é por geolocalização, facilita o encontrode pessoas que moram próximas, ou que cruzam o mesmo caminho. E foi pelo Happnque eu conheci o meu atual namorado, aliás. E você, Caio? 

CAIO: Olha só! Temos um caso de Tinderella no Bug doMilênio! Eu não vou mentir, já usei… e já tive até um relacionamento que surgiuno Orkut, em meio a depoimentos começando com "NÃO ACEITE" em letrasgarrafais. Aliás, até brigas nessa modalidade.

Claro, não é de hoje tudo isso. Aposto que em algum lugar nomundo há um casal que saiu das salas de bate papo do UOL. Mas, no cenário atualde pandemia da COVID-19 e o isolamento social, os relacionamentos virtuaistiveram um grande crescimento. O Tinder registrou um aumento grande na taxa deusuários da sua plataforma e até disponibilizou a todos uma função chamadaPassaporte, que antes era restrita para usuários assinantes das versões Plus eGold, onde era possível conversar com pessoas de outros países. No Brasil, ouso do recurso cresceu em 15%, enquanto em países como Alemanha, França eÍndia, o crescimento foi de 19%, 20% e 25% respectivamente. Já era esperadoisso, vocês não acham? Esse isolamento trouxe um sentimento de solidão paramuitas pessoas, então os aplicativos viraram um local preferencial para seconectar com pessoas legais. Vai que, após toda essa pandemia, quando todomundo estiver devidamente vacinado, essas pessoas se encontrem e consigam terum relacionamento duradouro, né?

Segundo o aplicativo Happn, no Brasil, em uma pesquisa feitacom 1.117 pessoas de diferentes regiões do país, 31% afirmaram ter praticadosexting durante a quarentena. Já 73% dos brasileiros se declaram ansiosos porum encontro íntimo após o confinamento, mas também ressaltam a importância deocorrer após o fim da pandemia, por motivos de segurança.

Inclusive, olhem que interessante, 62% dos entrevistadosafirmaram querer um relacionamento sério após a pandemia, uma vez que a solidãoimposta por esse período os levaram a almejar um romance no futuro. E temtambém os que descobriram o “amor próprio''. 72% afirmaram que estavam sevirando com eles mesmos. Enquanto isso, a indústria de vibradores deu umadecolada, aumentando em 50% desde o início da pandemia.

Um dos trunfos dos aplicativos de relacionamento é que eles,além de aumentarem a chance de encontrar pessoas sem ter que sair de casa,também driblam o medo da rejeição: você clica nos perfis que gostar e, se apessoa também tiver clicado no seu, vocês dão match e podem começar aconversar. Quando a conversa evolui legal, a tendência é marcar um encontropara se conhecer - e aí chega o momento de descobrir se rola química - e se apessoa estava mentindo quando criou o perfil dela no aplicativo - o que aliás ébastante comum.  

E por aí a gente começa a ver os impactos dessa tecnologianos relacionamentos. Uma das questões é a própria segurança dos usuários: podeser muito fácil criar um perfil falso, seja por insegurança da própria imagem,ou deliberadamente para querer dar um golpe. Os aplicativos multiplicaram suachance de encontrar potenciais parceiros, mas também criam problemas. 

Um estudo feito em 2017, nos Estados Unidos, com mais de1000 jovens em idade universitária, analisou os efeitos do uso do Tinder na saúdemental. A conclusão foi que tanto homens quanto mulheres tiveram impactosnegativos em sua própria autoestima e imagem corporal, em comparação aos quenão usavam o app. Uma das explicações é que a maneira como o aplicativofuncionava fazia com que os usuários tendessem a se sentir descartáveis em interaçõessociais, acreditando que sempre haveria algo melhor ali na esquina, ou nopróximo clique. Aí começavam a questionar seu próprio valor.

E como tudo tem dois lados, a coleta de dados sobre nossosrelacionamentos virtuais também revela aspectos surpreendentes. Uma pesquisafeita na Universidade de Oxford, pelos meus colegas Rachel Dinh e PatrickGildersleeve, analisou a atratividade das pessoas dentro de um aplicativo denamoro. Eles reuniram 5,000 mulheres e começaram a observar como as pessoasreagiam, qual seria a “nota” dada a elas dentro do aplicativo. Como já eraesperado, as pessoas consideradas mais bonitas se deram muito bem e receberamvárias mensagens. Contudo, o que ninguém esperava era que, aquelas que possuíamuma atratividade que dividia opiniões receberam muito mais atenção e eram maispopulares dentro desses aplicativos. Ou seja, pessoas bonitas chamam atenção?Sim, como sempre. Mas pessoas que têm uma aparência única, recebem muito maisatenção!

Moral da história: nada melhor do que ser a gente mesmo:beleza é um conceito bastante relativo, e a personalidade e a atitudeimportam. 

É por aí. O estudo traz muitos achados interessantíssimossobre comportamentos e preferências de homens e mulheres. Um que me marcoumuito é que muitos acreditavam que a internet ia colocar homens e mulheres empé de igualdade na internet, mas o que os pesquisadores identificaram foi ooposto! A relação entre homens e mulheres caiu num ciclo em que os homens falamcom muitas mulheres para tentar conseguir alguma resposta. Isso gera demanda desobra na ponta das mulheres, que acabam sendo mais seletivas e respondendomenos ainda. Então, isso leva a mais escassez para os homens que ficam maisdesesperados! Tempos de escassez, rapazes! Não tá fácil pra ninguém! 

E um caso clássico no cinema foi o filme “Her”, que estreounos cinemas em 2013. O filme contava a história de um escritorrecém-divorciado, que se apaixona por um sistema operacional chamado Samantha -que tinha a voz da Scarlet Johansson. O filme traz várias reflexões sobre essemundo solitário onde as pessoas buscam consolo emocional na tecnologia. E noJapão, já é legalizado o casamento com personagens virtuais, vocês sabiam? Foiuma forma que o governo achou para poder solucionar a solidão entre osjaponeses já que 60% dos homens jovens que não estão casados, no Japão, nãoestão em nenhum relacionamento.

Parece até filme, mas tem até estudos sobre essa novajuventude japonesa que não quer estar em um relacionamento, a chamada “síndromedo celibato”.

Na França também, há mulheres que estão noivando com robôs.Já há especialistas afirmando que a legalização do casamento com robôs já estáperto também. Será que a moda pega? Ou melhor chamar um analista de casal?

 

Pode ser muito mais fácil amar uma máquina que um serhumano. Afinal, amar seres humanos anda bem difícil, né!  O risco émais uma vez o uso que a gente faz da tecnologia. Os aplicativos derelacionamento podem ser grandes aliados para facilitar o encontro entre aspessoas, mas pode levar à mesma noia que a gente vê em relação aos filtros, comuma supervalorização das imagens em vez da essência de cada um. De novo, ésempre uma escolha. 

Exato. ao mesmo tempo em que a gente vendo pessoas usando oTinder só pra encontrar sexo fácil, há vários casos de pessoas que casaram comalguém que conheceram no aplicativo. Não tem regra. Os aplicativos facilitam oencontro, mas como você vai usá-lo depende de você. É como uma feira: tem muitaoferta, depende do que você está procurando. 

E se a gente pensar em tendências, tem muita coisa vindo poraí nessa fronteira entre tecnologia e relacionamentos.

É o verdadeiro Black Mirror. Vocês lembram daquele episódio(olha o spoiler, galera) onde o marido morre em um acidente e a viúva recebe aproposta de receber, em sua casa, um robô idêntico ao seu ex-marido e que,automaticamente, baixa todas as interações dele nas redes sociais para entendero seu comportamento e as suas respostas?

Inclusive, apenas a título de curiosidade, um canadense, há8 anos, criou uma inteligência artificial capaz de simular a sua falecida noivaatravés de mensagens.

Esse episódio é bizarro, mas traz reflexões importantes paranós. Será que os robôs vão conseguir superar um relacionamento entre humanos nofuturo? O fato é que já há várias empresas, como a Realrobotix, nos EUA, quecriam robôs sexuais, na faixa de US$ 8 mil e US$ 10 mil. Será que vamos perdera utilidade para os humanos? Hahaha. Há também jogos para Nintendo que simulamum relacionamento e você vai ganhando “pontos de namorado” quando você ajuda apersonagem.

E no contexto da pandemia vários aplicativos derelacionamento agregaram inovações para dinamizar os encontros virtuais. O maiscomum foi a inclusão de chamadas de áudio e vídeo para estimular as pessoas afazerem o primeiro encontro virtualmente - e alguns até ofereciam visitasvirtuais a Museus para que os usuários possam ter uma sensação mais próxima doque seria um encontro na vida real.

Algumas inovações são ousadas, tentam resolver esse dilemaentre distância e intimidade. Já inventaram até um equipamento sensorialcomposto por um óculos VR e alguns objetos de controle remoto para as pessoasse estimularem à distância… eu não consigo deixar de imaginar na cena cômicaque é a intimidade do casal à distância com óculos de realidade virtual egadgets tecnológicos! hahaha Será que vem incluso na função passaporte doTinder?

Como diria aquele o velho ditado, antes só doque mal acompanhado.