18/06/2021

A educação digital surge para consertar uma educação quebrada?

Artigo por Beatrice Bonami

O romance “A Cidade e a Cidade”, de China Miéville (2011), narra uma história de duas cidades que coexistem no mesmo espaço, compartilhando ruas e até edifícios em “áreas cruzadas". Contudo, é ilegal para os cidadãos dessas cidades reconhecerem que se viram. Eles passam a vida policiados por uma organização que aplica a lei de invisibilidade compulsória.

Quando crianças, os cidadãos desses lugares fictícios andam por ruas compartilhadas, mas gradualmente aprendem a não 'vê-las', para que, ao crescer, não  estranhem a vida em cidades interseccionadas.

Apresento esse suspense policial para fazer uma comparação com a intersecção de campos de conhecimento, argumentando a existência de campos epistemológicos paralelos que são ensaiados a não verem áreas de conhecimento ortogonais. Minha percepção é de que nos últimos anos, teorias e escritores, disciplinas e perspectivas paralelas ocupam os mesmos espaços, assim como no trabalho de Miéville. Por vezes, tais campos do conhecimento desenvolvem-se e constroem impérios do saber evitando reconhecer essa copresença. Esse fenômeno se instaura com aparente potência no campo da educação e das tecnologias digitais, no que parece a imposição de barreiras que tornam campos correlatos incomunicáveis.

Chamo de exercício de abstração o ato de cruzar as barreiras entre esses campos. A abstração é uma atividade que envolve uma reorganização vertical de constructos materiais e imateriais (desde organizar um quarto até resolver um problema matemático). Platão descrevia a abstração como uma maneira de se encontrar a verdade, enquanto Bertrand Russel a definia como uma maneira de alcançar objetivos.

Como cruzar barreiras entre educação e tecnologia digital?

A tecnologia digital pode ser associada com formas radicais de mudança. A educação disruptiva descreve um fenômeno de uso de tecnologias comuns para falar de valores emergentes, necessidades e desejos tanto de aprendizes quanto de educadores. A tese da inovação disruptiva aparenta oferecer uma verdade inconveniente de que talvez não exista um real benefício em torno da tecnologia digital.

A disrupção como um conceito sinônimo à ideia de ponto de inflexão, tem como justificativa que a maioria dos esforços que sustentam a educação digital tocam superficialmente as ineficiências do status-quo educacional. Isso pode ser intuído por uma ideia excessivamente tecnicista da educação digital, enquanto que uma abordagem extensiva das sensibilidades humanas sobre dispositivos e redes poderia oferecer uma nova maneira de pensar a comunicação e a educação. Aqui é possível argumentar que talvez uma disrupção verdadeira não seja sobre usar a tecnologia para fazer as mesmas coisas de maneira diferente, mas usar a tecnologia para fazer coisas fundamentalmente diferentes.

As tecnologias digitais no campo educacional são vistas como níveis de mudança, análogas à mediação de processos e práticas não-digitais, sendo celebradas como um conjunto de iniciativas que melhoram o sucesso educacional. Frequentemente, essa relação em melhorar o aprendizado ou os educadores e os aprendizes prescrevem a tecnologia digital em uma sequência de verbos em que sistemas possibilitam, auxiliam, avaliam e apoiam o aprendizado.

Contudo, outros níveis de mudança são contemplados em torno das tecnologias digitais, como quando associadas à transformação de processos e práticas educacionais como uma referência à renovação e revolução da natureza e das formas da educação. Essa mudança nas linguagens implica uma série de transições fundamentais (de orientação metodológica e filosófica). Um nível ainda mais extremo é a ideia de que as tecnologias digitais estão liderando uma revolução na educação.

Os argumentos de que a tecnologia digital é um conserto do sistema educacional estão desatualizados.

Durante as últimas décadas, indústrias e modelos de negócios se tornaram uma das maneiras mais familiares para escrever a inovação digital e desse contexto emerge a principal questão: a educação está quebrada? A educação digital emerge para consertar a educação tradicional com seu sistema quebrado?

Tratar da inovação educacional é um exercício mais extenso que responder essas duas perguntas. A interface entre tecnologia e educação é complexa e soluções digitais em educação podem ser acompanhadas por circuitos de venda e compra de ideias, equipamentos e projetos - distanciando a suficiência tecnológica para que o mercado permaneça em constante progresso.

Mas como é possível estruturar modelos sobre educação digital? Na busca do metaconhecimento, Morin recorre a modelos que tendem a explicar a relação entre mente, conhecimento, cérebro e subjetividade. Para Morin, o conhecimento é um fenômeno multidimensional, “simultaneamente físico, biológico, cerebral, mental, psicológico, cultural, social” (Morin, 1999, p.18), mas que foi “rachado”, no interior da cultura ocidental, pela própria organização do conhecimento, especialmente pela disjunção entre ciência e filosofia e pela fragmentação disciplinar.

Com o intuito de driblar a divisão disciplinar que, segundo Morin, é um obstáculo no metaconhecimento, ele recorre a modelos químicos, biológicos, filosóficos, físicos e sociais na tentativa de achar um padrão universal de como ocorre o conhecimento. Ele observa, no entanto, que diante dos inúmeros modelos analisados, há uma constante: o movimento científico de quebra paradigmática. Lembrando Thomas Kuhn (1979), paradigmas são convenções e padrões definidos no âmbito de grupos de pesquisa que regem a área científica de certas disciplinas. Os modelos conceituais (em que tentam explicar fenômenos observados) são correlatos a essas convenções e, por uma evolução natural da ciência, são questionados e eventualmente quebrados para dar seguimento a novas pesquisas e novos modelos subsequentes.

Momentos de ruptura paradigmática constituem uma crise geral de percepção, na qual os instrumentos utilizados para compreender a realidade já não servem para captar as informações necessárias e tornam-se inadequados para descrever as turbulências de um mundo em permanente transformação. Modelos universais são falhos e devem ser contextualizados para fazer sentido.

Então, isso quer dizer que não há modelos suficientes para pensar o ensinar?

Pensar em ensinar não é considerar apenas a interface entre professor e estudante: é entender que as palavras atribuídas nesse processo carregam significados que podem mascarar a tecnologia e a construção coletiva do conhecimento. Assim como o prefixo “pós” (em pós-humanismo) é usado para revogar categorias de humanismo, as expressões “alfabetização” e “educação” carecem de uma “pós-” visão de seus significados. Seus sentidos rígidos levam à denotação de processos instrumentais de apreensão do mundo, deixando a extensão conectiva do sujeito como fator subjetivo e não objetivo principal.

A educação para o digital é construída dentro da transdisciplinaridade e nos referimos ao prefixo “trans” de acordo com a definição de “tradução” de Latour (2011), reconhecendo a Educação como uma arquitetura informativa (coorte de estruturas, referências e concepções que sustentam um campo do conhecimento). O desafio de realizar pesquisas neste curso de pensamento é alinhar as elaborações acadêmicas com o contexto pragmático (escolas primárias, secundárias e outros níveis educacionais) e capacitar a população e o governo para compreender as implicações do que parece ser uma nova possibilidade para o filosofia do conhecimento e, se ainda não um novo paradigma, uma visão de uma educação em mudança.

Cientistas são porta-vozes de seus objetos de estudo. Quando se inicia um ciclo científico, é aconselhável que o pesquisador se questione por quem ele está falando, já que ele é o representante daquilo que estuda. Então eu convido vocês que me leem aqui hoje a se perguntarem: por quem ou pelo quê vocês estão falando? Quais são os ciclos científicos que vocês habitam? Por onde vocês transladam ou quais campos de conhecimento te prescrevem? O que ou quem vocês estão traduzindo?

Autora:

Beatrice Bonami

Head de Educação

Pesquisadora ítalo-brasileira em Educação e Inovação. Ph.D. pela Universidade de São Paulo e pela University College London. Research officer no Painel Independente para Preparação e Resposta à Pandemia da Organização Mundial da Saúde e Embaixadora Jovem da UNESCO.